Já não surpreende e quase não escandaliza a ninguém ler manchetes jornalísticas que ignoram qualquer correspondência à realidade em função do impacto midiático imediato. Isso revelou-se novamente quando a Folha de S. Paulo se orgulhou ao sabatinar o encenador norte-americano Bob Wilson.
A seguir o jornal noticiou:
‘Para Bob Wilson, atuar de forma artificial é mais “honesto’,
‘Teatro não é decoreba’ e
‘“Fazer arte é uma mentira” diz Bob Wilson’
(ver os links da Folha de S.Paulo no final)
Primeiro pensei: sucesso artístico e comercial não credencia à teoria estética, nem previne de falar besteira. Chamavam atenção a burrice e a falsidade das proposições contidas nessas manchetes. Quem conhece a precisão do teatro de Wilson talvez hesite em acreditar que sua reflexão teórica fosse tão equivocada. Comecei a redigir umas notas com o intuito de discutir o tema da 'mentira' e da 'honestidade' até mesmo independente do contexto original. Por fim ao verificar as locuções originais percebi que Wilson em momento algum disse o que as manchetes lhe atribuem.[1] Nos trechos em vídeo disponibilizados on-line pela Folha de S. Paulo, Wilson se volta contra duas coisas:
- Um teatro “escolar” e “decorativo” onde todos elementos da cena somente reforçam e duplicam as intenções psicológicas e a primazía do texto teatral.
- a suposição que as ações e os objetos no palco sejam ou podem ser "naturais".
Em relação ao primeiro ponto, Wilson recomenda “queimar” as escolas de teatro que promovem este teatro decorativo[2] e ressalta o teatro enquanto arquitetura, tendo o texto como um elemento importante entre outros igualmente importantes.
Em relação à segunda questão, Wilson enfatiza que qualquer coisa que ocorre num palco é esteticamente contextualizada pelo espaço cênico. Significa que o palco, ou qualquer outro formato, sinaliza uma convenção de percepção da realidade que avisa a todos que os gestos e movimentos realizados neste espaço e durante a apresentação não são “naturais”. São “artificiais”, ou arte. Em momento algum Wilson afirma que o teatro ou a arte enquanto tais sejam “mentiras”, mas que é uma mentira pensar ou afirmar que ações cênicas realizadas no palco sejam naturais.
Em outras palavras: Wilson critica o naturalismo e o realismo psicológico no teatro sob dois aspectos:
a) em função de sua pobreza de sentido (seu ataque ao teatro decorativo) que duplica um mesmo nível de sentido através de sinais materialmente diferentes mas com a mesma função semântica.
b) a confusão conceitual acerca do status ontológico da arte e do teatro por um lado e da vida cotidiana por outro.
Deduz-se que Wilson considera intencional a insistência no equivoco da naturalidade, sendo este o motivo de chamá-la de mentira. O naturalismo lhe parece menos "honesto" do que um teatro “artificial” (formalizado e coreografado) e por sugerir uma falsa idéia acerca do status ontológico do teatro e da arte em geral, isto é, por sugerir que arte e vida cotidiana pertencem ao mesmo domínio de realidade, o da naturalidade.
Antes de aprofundar a questão se a arte é mentirosa por essência ou natureza e para evitar a dissolução indiscriminada de todos os conceitos no mesmo saco estomacal antropofágico vale perguntar: O que é uma mentira? Basicamente, eu diria, é uma proposição falsa, feita intencionalmente por um sujeito, para manipular um interlocutor e fazer com que este baseie seus juízos e atos numa avaliação equivocada da realidade.[3]
Se a arte fosse mentira, e se não fossemos capazes de distinguir entre domínios diversos de realidade, então as delegacias e os hospitais psiquiátricos seriam semanalmente inundidas por boletins de ocorrência sobre as atrocidades e loucuras cometidas nos teatros da cidade. Nas bilheterias haveria filas intermináveis de espectadores lesados reinvindicando a devolução do valor de ingresso depois de perceber a fraude: os personagens esfaqueados rescussitam de repente na hora do aplauso. Não é o que acontece. Desde Aristóteles, sabe-se que as ações artísticas são apreciadas justamente por entendermos que elas aparecem entre aspas, indicando um determinado modo de recepção enquanto ações de arte: assim nos deliciamos com desgraças, crimes, desesperos, injustiças e assassinatos deslumbrantes e de toda ordem.
E Wilson deixa sua consciência dessas ‘aspas’ evidente quando enfatiza que o espaço cênico fornece uma convenção que transfigura os atos nele realizados, tornando-os artificiais ou melhor, artísticos. É como se a arte avisasse: “o que os senhores assistirão aqui nas próximas tantas horas não deve ser confundido com o cotidiano.” Mesmo as artes performáticas, orgulhosas de seu caráter intervencionista, trabalham com a fronteira entre dois domínios de realidade, com a fricção, sobreposição e eventual confusão de fronteiras e é indispensável aos seus propósitos que a percepção desta diferença, e com ela as duas realidades, seja de alguma forma preservada.
Para Wilson o naturalismo e o realismo tendem à desonestidade em função de pressupostos teóricos e de modos de ação cênica que induzem o espectador a confundir-se acerca da essência da arte, sugerindo sua naturalidade.[4] A arte e o que ela produz não são naturais, mas por este motivo a arte não deixa de ser real. A arte é uma realidade de um outro tipo do que realidade cotidiana.[5] O artista que julga que sua arte pertence ao mesmo domínio da realidade cotidiana se equivoca, e ele mente se procura induzir o espectador à crença que as ações cênicas sejam reais no mesmo sentido que o cotidiano é real. Entretanto, para poder mentir e ludibriar o espectador o artista naturalista precisaria saber da falsidade teórica de seu naturalismo, mas neste momento, a rigor, deixaria de ser defensor do naturalismo.
Aqui a afirmação de Wilson entra num colapso porque seria preciso encontrar outros motivos que explicam as mentiras deste naturalismo e realismo desiludidos. Mas minha intenção principal não é expandir ao infinito as implicações ou eventuais contradições das afirmações de Bob Wilson, que vem contribuindo com a evolução e a beleza do fazer teatral das últimas décadas. Também não se trata de defender as suas idéias acerco da arte e do teatro.
O que incomoda e, ao meu ver, merece crítica é a maneira como alguns jornalistas - seja por simplificação, por incompetência ou mero sensacionalismo - desfiguram os argumentos de um artista e banalizam a discussão da função da arte na sociedade. Trata-se de um des-serviço ao artista convidado, à comunidade artística e ao leitor em geral. Simplificar aqui é desfigurar, traduzir errado é falsificar. Uma manchete como “A arte é mentira” coloca as artes e o teatro de volta no parque dos estereótipos, preconceitos, do mundo do duvidoso, do engano e das falsas aparências com todos seus pressupostos ideológicos. Posta erroneamente na boca de um artista prestigiado, a banalidade e falsidade de tal proposição ganha ares de relevância. Não há motivos que justificam que tais deturpações sejam divulgadas pelo “jornal de maior circulação do Brasil”.
Wolfgang Pannek
Wolfgang Pannek
02/12/2008
[1] É importante ressaltar que a tradução da exposição de Wilson feita ao vivo, e disponíveis no Videocast Folha Online , não contêm os mesmos problemas que se encontram nas manchetes e nos breves artigos publicados na Folha Online. Ao meu ver isso piora a situação já que o jornal alcança via Internet, com informações falsas ou simplificadas (no caso dos artigos em questão), um público muito maior do que na sabatina, onde espectadores tiveram um acesso direto à fala de Wilson.
[2] Uma das manchetes traduz o ‘teatro decorativo’ mencionado por Wilson como “Teatro de decoreba”, o que é obviamente um equivoco que leva o leitor a um tema inteiramente diferente. Em momento algum Wilson disse "Queimem as escolas de teatro que só ensinam a decorar texto.” Wilson estava efetivamente opondo um ‘teatro arquitetônico’ privilegiado por ele a um ‘teatro decorativa, ilustrativo e escolar’.
[3] Obviamente baseamos constantemente nossos juízos e atos em avaliações equivocadas da realidade, mas o que importa aqui é um contexto comunicacional que visa a manipulação do outro através da retenção e da deturpação intencional do conhecimento..
[4] Sob este ponto de vista específico, não por ser adepto da teoria naturalista nem de seus métodos , considero necessário defender o realismo psicológico e o teatro dramático da crítica de Wilson (que se encontra aqui até certo ponto com Brecht). O critério principal de Wilson é a função contextualizadora da convenção teatral (p.ex. o espaço cênico) que indica que o acontecimento presenciado seja artístico e que norteia sua recepção apropriadamente. Mas a universalidade deste critério vale justamente para qualquer manifestação cênica independentmente do grau de sugestão psicológica ou naturalista inerente a um determinado estilo de atuação e encenação. Indiretamente, Wilson se engaja aqui numa desnecessária legitimação de seu próprio fazer teatral e da maior honestidade de sua linguagem.
[5] Este pequeno artigo evidentemente não tem a pretensão de resolver o enigma da diferença ontológica entre objetos de arte e outras formas de realidade.